sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Curta Cuba - Sueño de Mosk

Existe alguma liberdade do lado de fora da janela? Qual a liberdade cerceada do lado de dentro desta janela que tanto se fala? Somos mais livres além da janela? Sueño de Mosk é uma animação cubana em 3d que traz uma instigante metáfora. Com história, animação e montagem de Bruno Rodriguez, o curta-metragem tem como protagonista uma mosquinha que faz esforço descomunal para atravessar a janela fechada. Assista Sueño de Mosk no reprodutor abaixo.



Sueño de Mosk



Sinopse
Mosca esforça-se para fugir além da janela.

Gênero Animação
Diretor Bruno Rodriguez
Ano 2005
Duração 1'55''
Cor Colorido
País Cuba

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Curta Manual para Atropelar Cachorro

Vale lembrar que trabalhar demasiadamente faz mal à saúde. Associar falta de férias, tédio e solidão pode causar resultados desastrosos ao equilíbrio mental. Veja isso no premiado curta Manual para atropelar cachorro.





Manual para Atropelar Cachorro

Sinopse

De onde vem a maldade humana? O que leva alguém a cometer atos de crueldade? O mundo visto por uma mente doente, enlouquecida em uma cidade grande qualquer. Síndromes Urbanas.

Gênero Ficção, CONTEÚDO ADULTO
Diretor Rafael Primo
Elenco Ary França, Bárbara Paz, Cynthia Falabella, Rafael Primo, Rodrigo Frampton, Rubens Ewald Filho, Tuna Dwek, Zezé Polessa
Ano 2006
Duração 18 min
Cor Colorido
Bitola 35mm
País Brasil


Ficha TécnicaProdução Daniel Gaggini Fotografia Marcio Langeani Roteiro Rafael Primo Som Direto Paulo Seabra Direção de Arte Manu Ferrari Animação Tiago Taboada Trilha original Morris Picciotto Figurino Carol Bertier, Davi Vale Pós-produção Daniel Gaggini Trilha Sonora Morris Picciotto, Dan Nakagawa

Prêmios
Melhor Ficção no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2007
Grande Prêmio U-Matic no Festival de Curtas de São Paulo 2006
Os 10 Mais - Escolha do Público no Festival de Curtas de São Paulo 2006
Prêmio Cachaça Cinema Clube no Festival de Curtas de São Paulo 2006
Melhor Filme - Crítica no Festival de Gramado 2006
Melhor Filme - Júri Popular no Festival de Gramado 2006
Prêmio aquisição Canal Brasil no Festival de Gramado 2006
Prêmio Revelação no Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira 2006
Melhor Filme - Júri Popular no Mostra de Cinema de Londrina 2006
Melhor Ator no Vitória Cine Vídeo 2006
Melhor Atriz no Vitória Cine Vídeo 2006
Melhor direção no Vitória Cine Vídeo 2006
Melhor Montagem no Vitória Cine Vídeo 2006

Festivais
Curta Cinema 2006
Exground Filmfest 2006
Festival de Cinema Universitário da UFF-RJ 2006
Festival do Rio 2006
Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte 2006
Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2006
Mostra de Cinema de Tiradentes 2007
Mostra do Audiovisual Paulista 2006
Mostra do Filme Livre 2007
Short Film Market 2006


Filme do PortaCurtas

Postagem originalmente produzida para o blogue Música&Poesia

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Contrariando expectativas Tropa de Elite fatura Berlim

Cinema brasileiro: festa em Berlim

O cinema brasileiro fez bonito na 58ª edição do Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale. “Tropa de elite”, de José Padilha, ganhou o prêmio maior do júri, o Urso de Ouro, e mais três filmes nacionais ganharam prêmios ou menção honrosa.

por Flávio Aguiar para a Agência Carta Maior

Contrariando as expectativas e os prognósticos dos críticos de cinema convencionais da imprensa de Berlim, que apontavam “There will be blood” (“Sangue negro”), de Paul Thomas Anderson (que tem 8 indicações para o Oscar) como favorito, o filme “Tropa de Elite”, de José Padilha ganhou o Urso de Ouro, o grande prêmio do júri, presidido pelo cineasta grego Costa-Gavras.

Anteriormente o filme “Central do Brasil”, de Walter Salles, ganhara o Urso de Ouro, um dos prêmio mais cobiçados do mundo. Na mesma edição, Fernanda Montenegro ganhou o prêmio de melhor atriz. Desta vez, três outros filmes brasileiros foram destacados pelos diferentes júris do festival: “Café com leite”, de Daniel Ribeiro, ganhou o Urso de Cristal na categoria de curtas para jovens; “Mutum”, de Sandra Kogut, ganhou menção honrosa na categoria de filmes infanto-juvenis; e “Ta”, de Felipe Scholl, ganhou o prêmio especial Teddy, de filmes de temática homossexual, uma originalidade do festival de Berlim.

Assim como no Brasil, a recepção de “Tropa de Elite” em Berlim foi controversa. Houve quem apontasse o filme como de tendências fascistas, ou que mostraria tendências fascistas do público brasileiro.
Padilha e Wagner Moura, que interpretou o capitão Nascimento e que também esteve em Berlim, passaram o tempo inteiro defendendo ambos, o filme e o público brasileito. Conversei com os dois na recepção que a Embaixada Brasileira ofereceu aos cineastas, com um jantar na residência do Embaixador, além de uma coletiva de imprensa alguns dias depois.

Padilha enfatizou que para ele a consideração de seu filme como excitando tendências fascistas foi mais um fenômeno de imprensa do que de público. Segundo ele, tudo começou na estréia do filme, quando artistas e técnicos presentes aplaudiam as cenas pelo trabalho dos atores, não pelo conteúdo das imagens. Um jornal publicou que os presentes aplaudiam as cenas de tortura e violência enquanto tais. Houve o desmentido, que o jornal publicou. Mas a temática se espalhou feito rastilho de pólvora. Ainda segundo Padilha, ele freqüentou dezenas de sessões do filme, em universidades e associações de bairro, e ninguém aplaudiu a violência nem considerou o capitão Nascimento um herói.

A mesma opinião teve Wagner, ressaltando que estranhara, a princípio, que os jornalistas alemães não perguntaram muito sobre a situação brasileira, mas sim sobre sua preparação como ator, que, aliás, foi meticulosa, passando por três meses de treinamento no próprio Bope. De todo modo, os dois tiveram sucesso na sua defesa, pois hoje a conclusão geral em Berlim foi a de que, por mais controverso que o filme seja, ele não é nem excita fascismos. Costa-Gavras que o diga.

Na verdade, o filme de Padilha foi também atingido, no Brasil, pela exibição indevida de sua cópia pirata. “Tropa de elite”é um filme feito para ser visto no cinema. Há certos detalhes que só a tela grande e um sistema perfeito de reprodução da trilha sonora podem tornar evidente. Por exemplo: quando o amigo de Baiano, o traficante, é baleado no final, gotas de seu “sangue” respingam na lente da câmera, que continua filmando com essa “cicatriz” que mistura realidade e ficção. De outra parte, só num sistema de som excelente se percebem as nuances da narrativa irônica de Nascimento, que narra a história a partir de um sistema de valores no qual não acredita mais.

Uma perspectiva interessante é a de analisar o filme a partir de uma tradição muito específica do cinema brasileiro, que é a de focalizar situações de violência “sem solução” para os personagens. A única saída é exatamente “sair” daquele cenário, o que também se explorou na literatura. Assim é com “Vidas secas”, (romance e filme), com “Pedra Bonita”, de José Lins do Rego, com o filme “O cangaceiro”, de Lima Barreto, que ganhou a palma de Cannes em 1953 como melhor filme estrangeiro, e também com o moderno “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. Além disso, o capitão Nascimento, como agente da repressão que entra em crise existencial, tem antecedente no enigmático Antonio das Mortes, de Glauber Rocha, nos filmes “Deus e o Diabo na terra do sol” e “O santo guerreiro contra o dragão da maldade”, exibido no mundo inteiro com o nome do protagonista. Mas isso é tema para um ensaio mais alentado, que oportunamente poderei tentar.

Padilha me contou que um jornalista brasileiro tentou convencê-lo a tirar uma foto no ponto de trem em que os judeus eram embarcados para os campos de concentração. Entre surpreso e enojado, ele se recusou a tal pantomima sinistra. Ainda bem, para ele e o cinema brasileiro. Hoje há festa em Berlim. Como na copa de 58, ninguém a princípio esperava que o Brasil levasse. Mas levou.


Fonte: AgênciaCartaMaior

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Fomento à Produção Audiovisual

Sete editais abertos até 29 de fevereiro
Restam 15 dias para inscrições em editais audiovisuais

por Priscila Delgado

Termina em 29 de fevereiro o prazo para inscrições nos sete editais de fomento à produção audiovisual abertos pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Os cinco editais destinados a curta-metragens apoiarão 80 produções. O edital de roteiros premiará a criação de cinco obras e o concurso para filmes de longa metragem de baixo orçamento permitirá a produção de cinco filmes de R$ 1 milhão cada.

O total de recursos mobilizados para o apoio às produções é de R$ 9.8 milhões.

Os concursos apoiarão:

Edital 01/2007 - Curta-metragem Animação
Obras apoiadas - 10
Valor Unitário - R$ 60 mil
Regionalização - Pelo menos 1 por região

Edital 02/2007 - Curta-metragem para Egressos ou Participantes de Projetos Sociais
Obras apoiadas - 20
Valor Unitário - R$ 30 mil
Regionalização - Pelo menos 2 por região

Edital 03/2007 - Curta-metragem Ficção, Documental ou Experimental
Obras apoiadas - 20
Valor Unitário - R$ 80 mil
Regionalização - Pelo menos 2 por região
Estreantes - No mínimo 8

Edital 04/2007 - Curta-metragem Infanto-juvenil
Obras apoiadas - 20
Valor Unitário - R$ 60 mil
Regionalização - Pelo menos 2 por região

Edital 05/2007 - Desenvolvimento de Roteiros
Obras apoiadas - 10
Valor Unitário - R$ 50 mil
Regionalização - Pelo menos 1 por região
Estreantes - No mínimo 4

Edital 06/2007 - Longa-metragem de Baixo Orçamento
Obras apoiadas - 5
Valor Unitário - R$ 1 milhão
Estreantes - No mínimo 2

Edital 07/2007 - Desenvolvimento de Série de Animação para TV
Obras apoiadas - 10
Valor Unitário - R$ 30 mil
Regionalização - Pelo menos 1 por região

Regionalização das políticas públicas

Respeitando o princípio de regionalização das políticas públicas, seis dos sete editais prevêem que haverá pelo menos uma proposta selecionada em cada uma das cinco regiões brasileiras - Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

Inéditos

Esta é a primeira edição dos Editais de nº 2, voltado para curtas-metragens de Egressos ou Participantes de Programas Sociais, e o de nº 7, voltado ao Desenvolvimento da Série de Animação para Televisão.

Estes concursos foram lançados para atender demandas da sociedade civil. O edital destinado a integrantes de programas sociais foi uma reivindicação encaminhada por representantes do 1º Fórum de Experiências Populares em Audiovisual (FEPA), realizado no Rio de Janeiro em junho de 2007, solicitando a extensão dos editais da SAv também para os núcleos populares de formação audiovisual, tais como grupos coletivos de produção, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips) e Organizações não Governamental (Ongs).

O Edital nº 02/2007 é fruto de uma política de estímulo à produção de animação que vem sendo desenvolvida desde a assinatura do convênio Brasil-Canadá, com ênfase no cinema de animação, em 1985.
Leia mais.

Todos os editais podem ser acessados através da página do Ministério da Cultura na Internet, no link
Editais e Premiações.

(Priscila Delgado, Secretaria do Audiovisual)


Fonte: MinC

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Fim de expediente, começo da criação

Para dar vazão ao pensamento

O que faz do homem homem? Sua força de trabalho ou sua criatividade? O que um ser humano é capaz de fazer para ter voz e dar vazão a sua criação?

As Palavras de um Faminto


Sinopse
Wallace, morador de uma região simples, consegue expressar seu mundo através de um pequeno passeio em que faz, começando pelo seu sonho enquanto dorme até a sua completa realização, onde numa casa parado com seu principal meio de comunicação tenta transmitir todo o seu sentimento.

Gênero Experimental
Diretor Arthur Moura
Elenco Wallace Carvalho e De Leve
Ano 2007
Duração 8 min
Cor Preto e Branco
Bitola Mini DV
País Brasil

Ficha Técnica
Produção Arthur Moura Fotografia Arthur Moura Roteiro Arthur Moura Som Direto Arthur Moura Direção de Arte Arthur Moura Montagem Arthur Moura Música China

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Curta Nacional Pormenores

Pormenores - As Minúcias de um Relacionamento em Crise
O não dito pode ferir mais do que o dito. O silêncio machuca mais do que o grito. Um gesto, um olhar, uma atitude, ou a ausência deles, podem ser uma chaga maior do que o insulto. Assista o curta-metragem paulista Pormenores e descubra que a sutileza também pode causar estragos.

Yerko Herrera
Pormenores



Sinopse
O retrato de um relacionamento em crise através de pequenos gestos e atitudes durante um café da manhã.


Gênero Ficção
Diretor Flávio Frederico
Ano 2000
Duração 5 min
Cor P&B
Bitola 35mm
País Brasil



Postagem originalmente publicada no blogue Música&Poesia

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Garage - O Mito do Homem Bom

Garage: o mito do homem bom
Filme irlandês premiado em Cannes traça, delicado e flertando com o humor negro, o retrato de um ser solitário, que não tem idéias próprias nem opiniões divergentes. Alguém tão puro que não encontrou seu lugar na sociedade

por Bruno Carmelo para o Diplô
Garage: Josie (Pat Shortt) - foto divulgação
Mais do que a história de um evento, o filme irlandês Garage, premiado em Cannes, conta a história de um homem só: trata-se de Josie, que trabalha no posto de gasolina de uma cidade minúscula, na Irlanda. Ele é um sujeito limítrofe, de pensamento e gestos lentos; e estranha incapacidade de enxergar maldade ou malícia no mundo em torno de si.

Há várias maneiras de refletir sobre esse personagem fantástico, primeiramente em seu caráter invisível. Josie é o homem que está sempre lá, trabalhando, sorrindo e respondendo educamente às perguntas que lhe fazem. Ele não tem idéias próprias nem opiniões divergentes. Na cidadezinha em questão, ele faz parte da paisagem; e sua presença física se incorpora às bombas de gasolina e aos cabos do posto. Nesse sentido, o filme lhe rende justiça, ao pôr em evidência os excluídos e vingar os sujeitos que não ganham nossa atenção quando andamos pela rua.

Josie é também o retrato do homem solitário. Ele é cercado de conhecidos, mas não mantém relações próximas com nenhum deles. Ele não tem esposa, nem filhos. Somente um irmão distante é citado ao longo de toda a narrativa. Uma cena é exemplar: ele é procurado por um senhor viúvo para conversar. Esse outro solitário, que só quer alguém que o escute, vê em Josie uma figura equivalente. Mesmo o garoto que Josie é incumbido de treinar representa o nerd — excluído do grupo de adolescentes da sua idade. Juntos, pintam um painel do homem triste e marginalizado.

Por fim, Josie encarna o homem que não conhece as regras sociais. Ele não sabe como se portar em sociedade, como fazer amigos, como se impor. Além disso, ele não percebe o grande desprezo que os moradores da cidade têm por ele. Josie é constantemente comparado às crianças ou, mais especificamente, animais (não seriam justamente a moral e as regras de convívio social que nos difeririam dos seres irracionais?). Nosso protagonista cultiva uma interessante relação de igualdade com um cavalo, e a humanidade de Josie é mesmo posta à prova no momento em que testemunha a morte cruel de alguns filhotes de cachorro. Influenciado pelo discurso pseudo-coerente do homem que os atira no rio, Josie convence-se e volta para casa, sem arrependimentos por não ter intervindo na cena.


Desconforto na sala: rir de Josie, um sujeito tão isento de responsabilidade, é como debochar das limitações impostas a alguém

Garage é um drama que flerta discretamente com o humor negro. Isso porque muitas das risadas evocadas pelo filme são involuntárias, vêm da seriedade e da inocência do protagonista. Foi interessante notar, dentro da sala de cinema, uma série de risos desconfortáveis, como se fosse desrespeitoso rir de um sujeito tão isento de responsabilidade por seus atos. Rir de Josie é como rir de um deficiente físico, ou seja, como debochar das limitações impostas a alguém; algo que nossos sensos sociais nos interditam.

Mas tal desconforto é inevitável, já que o filme destina-se justamente a expor esse homem, fechado em si mesmo, ao mundo exterior. Como Kaspar Hauser, que saía de seu cativeiro sem nunca ter visto outros homens; ou ainda como a pobre Justine de Sade, que acreditava no bem e era constantemente violada por todos em seu caminho, Josie vai pagar muito caro por sua inocência.

Garage reserva um final soberbo a seu anti-herói: culpado de não se inserir na sociedade, ele é literalmente devolvido à natureza, como seu amigo cavalo que ganha a liberdade e mesmo como os filhotes de cachorro jogados no rio. Seu exílio (ou morte simbólica) lhe confere um caráter lendário, folclórico; de alguém tão puro que não encontrou seu lugar no meio dos homens.

Garage (2007)
Filme irlandês de Lenny Abrahamson.
Com Pat Shortt, Conor Ryan, Anne-Marie Duff.
Duração de 1h30.


Fonte: LeMondeDiplomatique

Garage - trailer (em inglês)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Drama em Animação Polonesa

Algumas pessoas gostam de dizer que sua vida é um "livro aberto", expressão usada para afirmar que não tem nada a esconder. E se partíssemos do princípio que a vida é realmente um livro? Páginas e mais páginas contendo todos os fatos de nossa existência. Cada vida, cada indivíduo com o seu conjunto de folhas impressas, narrando de forma única todos os passos desde o nascimento até a morte.

short film, corto, curta, kisa,
UNDO.  Animação polonesa traz a vida escrita num livro - Reprodução
Pois é esse o tema de Undo, animação polonesa em 3d. Este curta-metragem mostra um homem que, dentre milhares de livros de uma biblioteca, encontra o livro que possui a história de sua vida. Com o impresso em mãos, ele tenta mudar o seu trágico passado. Roterizado, dirigido e animado por Marcin Waśko, Undo impressiona pelo realismo. Seja nas expressões do personagem ou no cenário, tudo é tão real que, por vezes, nem parece uma animação. Os movimentos de câmera, a luz, a textura, tudo contribui para dar veracidade a este dramático filme polonês. Ganhador de diversos prêmios em festivais europeus, Undo pode ser assistido no reprodutor abaixo. Lembre-se: ao tratar de desfazer seu passado, muito cuidado com o livro de sua vida.
Y.H.

Undo

Ou baixe aqui Undo (arquivo mp4 - Fonte: Platige Shorts)

Sinopse
"Undo" é a história de um homem que encontra um livro. Este livro contém a história de sua própria vida. Ele tenta mudar isso, mas, alterando o livro, ele vai mudar a sua vida?

Gênero Animação
Diretor Marcin Waśko
Ano 2003
Duração 2'45''
Cor Colorido
País Polônia

Festivais e Premiações
Grand Prix no 3o Internacional DigiTechMedia Workshops (Polônia)
Vencedor em Animago 2003 Professional / Categoria Curta-metragem Animação (Alemanha)
Seleção no 3o Hull Festival Internacional de Curtas-Metragens (Inglaterra)
Seleção no Raindance Film Festival (Inglaterra)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Análise de três Curtas do autor de Vinil Verde

Tremenda coincidência. Não faz uma semana que o OutroCine postou o curta Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, e a revista eletrônica de cinema, Filmes Polvo, traz na sua edição 16, em texto de Gabriel Martins, uma interessante análise da obra de Mendonça Filho. Confira a seguir reprodução do artigo que está no mais recente número da Filmes Polvo.

A trilogia de Kleber Mendonça Filho
por Gabriel Martins


Algo de muito interessante tem acontecido no circuito de Festivais de Cinema do Brasil: vários diretores de curtas têm conseguido consolidar obras de caráter pessoal e, assim, mostrar seus estilos, independente de terem um longa-metragem no currículo ou não. Temos como exemplo Rafael Gomes (Tudo que é sólido pode derreter, Alice), Carlos Magno (Kalishnikov, Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados), Esmir Filho (Ímpar Par, Alguma coisa assim), Eduardo Valente (Um Sol Alaranjado, Castanho, O Monstro), Kleber Mendonça Filho (Vinil Verde, Eletrodoméstica, Noite de Sexta, Manhã de Sábado), dentre vários outros. O que se percebe nesses trabalhos é uma grande vontade de dizer algo e imprimir características pessoais em suas obras, desde a poesia moderna de Rafael Gomes, passando pelo experimentalismo honesto de Carlos Magno, a pureza sentimental de Esmir Filho, o apuro visual e crítico de Eduardo Valente até a ironia pura de Kleber Mendonça Filho, diretor muito interessante e que analiso agora neste texto.

Kleber (que também é crítico) consegue tratar do contemporâneo sem soar repetitivo. É na ironia, também presente em suas críticas, que ele consegue tratar os nossos anseios e falta de comunicação, pensando as falhas humanas não só tematicamente, mas na própria forma do filme. Aí ele revela sua verdadeira posição: um experimentador de formas e sentidos cinematográficos. Seus três filmes possuem claras diferenças estéticas e narrativas, seja na direção como na montagem, o que revela uma grande vontade desse realizador de passear por diversas linguagens e formatos. Há algo de muito contemporâneo nisso.

Em Vinil Verde, as fotografias que compõem o filme (ele é uma montagem de vários stills com alguns “movimentos de câmera” de edição dentro deles) remetem diretamente a um livro de contos infantil, tornando-se não só uma brincadeira com o formato texto em que o filme se baseia (um conto russo), mas beneficiando a própria estrutura de suspense contida na narrativa. O off puramente sarcástico, critica de forma sutil o comportamento da juventude atual. A falta de comunicação (tema recorrente nos curtas de Kleber) entre pais e filhos aqui é posto em questão, sendo que este discurso se esconde, mas não desaparece frente a figuras quase trash que, no escuro, causam bom e leve desconforto.

Em Eletrodoméstica o formato é a película. A partir de uma fotografia natural, serão os enquadramentos e a arte que falarão pelo filme. O sarcasmo aqui é mais presente do que nunca, e o plano deboche da rua repleta de UNOs nos localiza muito bem neste conjunto de classe média bem média mesmo. Um plano resume bem o que significa para mim o filme: fazendo uma rima visual (proposital ou não) com Kubrick, uma steady-cam acompanha um carrinho de controle remoto por alguns segundos, remetendo imediatamente a Danny pelos corredores do Hotel Overlook. É o jogo feito pelo filme entre moderno e antigo, necessário e desnecessário, lembrando-nos de como o prazer causado pela tecnologia - em certo caso literalmente (máquina de lavar) - nos leva a um estado de dependência entorpecente. É um filme de rimas visuais, com o externo e com o interno (explosão da pipoca e orgasmo).

Em Noite de Sexta, Manhã de Sábado, a comunicação é o foco principal. Aqui, o fator moderno se dá na mediação feita pelo celular. É uma história de amor, mas que não deixa de apresentar uma veia irônica no seu tratamento. No começo vemos uma conversa legendada entre pessoas que falam o mesmo idioma e o nosso (português). É Kleber brincando com a prolixidade das pessoas, aquele ‘barulho demais’ do mundo contemporâneo que nos transforma em seres cada vez mais contraditórios (onde foi parar o “falar menos para falar mais?”). Logo depois a conversa é em “língua padrão universal” e mediada. O idioma não é o principal de nenhum dos dois interlocutores e a distância é minimizada artificialmente por este aparelhinho chamado celular que carrega em si todo um significado contextual. O formato, ao que aparenta, é um digital bem surrado (não entro a fundo no assunto, pois, ao que parece, a exibição do filme em Tiradentes não foi fiel à qualidade de finalização) que traz algo de melancólico em cada plano. É tudo muito quadrado, seco, sem vida. Só encontramos vestígios de luz nos olhares dos personagens, que sofrem como todos nós a distância, mas criam para si um alívio artificial. É a onda que se propaga através do oceano e lembra que estamos todos tão perto e tão longe.

O significado da imagem. Este está sendo o cinema feito por Kleber Mendonça Filho. Um questionamento interessante sobre o “cinema-formato”, que se torna coerente pela própria reflexão e abordagem presente na sua escrita (algo percebido também nos filmes de Eduardo Valente, outro crítico). É gostoso ver uma geração de realizadores pensando o cinema e a vida nos seus filmes que, ainda que limitados ao público de Festivais e internet, detêm uma importância grande para o nosso cinema ainda em construção.

Filmes Citados:
Ímpar Par (idem, 2005/ Esmir Filho)
Alguma coisa assim (idem, 2006/ Esmir Filho)
Tudo que é sólido pode derreter (idem, 2005/ Rafael Gomes)
Alice (idem, 2005/ Rafael Gomes)
Kalishnikov (idem, 2005/ Carlos Magno)
Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados (idem, 2006/ Carlos Magno)
Um sol alaranjado (idem, 2001/ Eduardo Valente)
Castanho (idem, 2002/ Eduardo Valente)
O Monstro (idem, 2005/ Eduardo Valente)
Vinil Verde (idem, 2004/ Kleber Mendonça Filho)
Eletrodoméstica (idem, 2005/ Kleber Mendonça Filho)
Noite de sexta, manhã de sábado (idem, 2006/ Kleber Mendonça Filho)

Fonte: FilmesPolvo


Assista o filme Vinil Verde, curta-metragem de Kleber Mendonça Filho

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Nunca ouça o Disco Verde

Vinil Verde

O premiadíssimo curta-metragem pernambucano Vinil Verde entra em cartaz aqui no OutroCine. Esta instigante fábula mostra a relação afetuosa entre mãe e filha, focando no conflito que surge ao se transgredir as regras. A transgressão, neste caso, vem acompanhada de curiosidade, prazer, medo, culpa e punição. Segundo o diretor Kleber Mendonça Filho, "Vinil Verde é uma história de amor, mas com elementos do cinema fantástico". Um dos aspectos mais interessantes deste filme é o fato de ele não ter sido filmado, mas, sim, fotografado. Mendonça Filho (co-roteirista, diretor, produtor e fotografo de Vinil Verde) fotografou com negativo 35mm still, montou no computador e posteriormente fez transfer para película. Quem ainda tiver as antigas vitrolinhas, lembre-se: Nunca, mas nunca mesmo, escute o vinil verde!
Yerko Herrera

Sinopse
Mãe dá a Filha uma caixa cheia de velhos disquinhos coloridos. A menina pode ouvi-los, exceto o vinil verde.

Vinil Verde


Gênero Ficção
Diretor
Kleber Mendonça Filho
Elenco
Gabriela Souza, Ivan Soares, Verônica Alves
Ano
2004
Duração
16'15''
Cor Colorido
Bitola
35mm
País
Brasil

Ficha Técnica
Produção
Kleber Mendonça Filho Fotografia Kleber Mendonça Filho Roteiro Kleber Mendonça Filho, Bohdana Smyrnova Produção Executiva Kleber Mendonça Filho, Isabela Cribari, Leo Falcão Montagem Daniel Bandeira, Kleber Mendonça Filho


Curiosidades
Vinil Verde é uma adaptação de uma fábula infantil russa.
O roteiro é de Kleber Mendonça Filho em parceria com Bohdana Smyrnova, cineasta/roteirista ucraniana de Kiev. 

Vinil Verde, segundo o diretor, é, indiretamente, uma singela homenagem a um de seus filmes preferidos: "La Jetée", de Chris Marker. No entanto, Mendonça Filho afirma que, tematicamente, não tenha nada a ver. Marker está na lista de agradecimentos.
A Mãe e a Filha no filme são mãe e filha na vida real, Gabriela Souza (filha) e Verônica Alves (Mãe).

O filme foi montado num Mac G4, e fotografado em negativo 35mm still.
O arquivo final para transfer 35mm ficou com 49 GB de seqüências animadas em TIFF.


Prêmios
Melhor direção no Festival de Brasília 2004
Melhor Montagem no Festival de Brasília 2004
Prêmio da Crítica no Festival de Brasília 2004
Menção Honrosa ABD&C no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2004
Os 10 Mais - Escolha do Público no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2004
Prêmio Cachaça Cinema Clube no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2004

Festivais
Festival de Cinema Latino-americano de Toulouse 2005
Festival de Tampere 2005
Festival de Tiradentes 2005
Quinzena dos Realizadores - Festival de Cannes 2005
Cine PE 2005
Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2004
Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira 2004


Originalmente postado no blogue Música&Poesia
Informações: PortaCurtas


Leia também 
Análise de três Curtas do autor de Vinil Verde

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Revelando os Brasis tem Inscrições Prorrogadas

Programa Revelando os Brasis prorroga prazo de inscrições até março
por Quênia Nunes
da Agência Brasil


Brasília - O prazo das inscrições para a terceira edição do programa Revelando os Brasis foi prorrogado até o dia 28 de março. O programa seleciona e premia 40 histórias escritas por moradores de municípios com até 20 mil habitantes, contadas em vídeos de até 15 minutos de duração.

As histórias podem ser reais – baseadas em personagens históricos ou típicos das cidades – ou de ficção. E são avaliadas por uma comissão de sete pessoas envolvidas com a área de audiovisual, entre professores, produtores e realizadores de reconhecimento nacional, que leêm as histórias, debatem e chegam às 40 selecionadas. O resultado sairá em maio.

Para Beatriz Paoliello, presidente do conselho administrativo do Instituto Marlin Azul, parceiro do Ministério da Cultura no projeto, disse considerar o programa uma “alfabetização visual”. Ela explicou que o objetivo é "iniciar um processo de formação nesses municípios que não têm muito acesso a cursos de cinema, um processo que se poderia chamar de alfabetização visual, porque a partir dessa experiência as cidades se mobilizam para novas produções, inclusive em outras áreas da cultura".

A grande maioria dos municípios não tem cinema e o Revelando os Brasis supre essa lacuna, acrescentou Paoliello, ao informar que os vencedores participarão de oficinas de dez dias no Rio de Janeiro, preparatórias de roteiro, fotografia, som, edição, direção de arte, mobilização cultural. No retorno, montam uma equipe com outras pessoas da cidade e, em parceria com o instituto, são contratados dois profissionais para operar os equipamentos.

Neste ano, as gravações serão em DVD e a distribuição, gratuita, para organizações sociais, bibliotecas, universidades e cineclubes de todo o país. Os filmes produzidos pelo Revelando Brasis já participaram de festivais nacionais e internacionais. "Uma enquete identificou muitos realizadores que continuaram no meio. Alguns estão estudando, outros decidiram fazer faculdade, outros aplicaram o conhecimento adquirido, outros montaram cineclubes. O projeto é um ponto de partida para as pessoas definirem seu rumo a partir da área com que mais se identificam no audiovisual", disse Paoliello.

Mais informações podem ser obtidas no endereço eletrônico
www.revelandoosbrasis.com.br.

Fonte: AgênciaBrasil

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Curta Othon Bastos em O Número

Assista o curta-metragem O Número, do diretor Beto Bertagna, produzido em Rondônia, estado escasso em produções cinematográficas. Este filme, feito com parcos recursos e muita garra, consegue prender o espectador com um ótimo texto e a brilhante interpretação de Othon Bastos.



O NÚMERO
Um homem troca de nome até conquistar um, definitivo...
Baseado em conto do livro Babel, de Alberto Lins Caldas. Um
curta-metragem brasileiro premiado em Festivais de Cinema.

O Número



Sinopse
Em "O Número" um homem narra a trajetória de sua vida. Ao longo dos anos, seu nome vai constantemente mudando e, com isso, também vão mudando as circunstâncias de sua vida e até os traços de sua personalidade. O filme é baseado em um conto homônimo de Alberto Lins Caldas e tem, como protagonista, o genial Othon Bastos.

Gênero Ficção
Diretor Beto Bertagna
Elenco Othon Bastos
Ano 2004
Duração 10 min
Cor Colorido
Bitola 16mm / Vídeo
País Brasil

Ficha Técnica
Produção Beto Bertagna Cinema & Vídeo Fotografia Rodolfo Ancona Lopez Roteiro Alberto Lins Caldas Som Direto Gilmar Santos Direção de Arte Joeser Alvarez Montagem Beto Bertagna Música Augusto Silveira

Prêmios
Melhor Ator no Cine Ceará 2004


Leia abaixo matéria da Agência Carta Maior sobre o filme "O Número", publicada em 24/03/2006.
por Eduardo Carvalho - Carta Maior


Conversamos com o diretor, que mora em Rondônia, e que nos narrou as peripécias para filmar um curta-metragem em um estado no qual não há a menor tradição de produção cinematográfica e onde os recursos são muito escassos.

A idéia de fazer “O Número” nasceu na noite de lançamento do livro de contos “Babel”, do escritor pernambucano Alberto Lins Caldas, que está radicado em Rondônia. “Folheando o livro, me deparei com o conto e imediatamente pedi ao Alberto, no meio da festa, se poderia filmar. Ele achou que era brincadeira e permitiu, entre gargalhadas. Apresentei o projeto no Petrobrás Cultural e ele levou um susto quando, mais tarde, eu mostrei a notícia do Prêmio” – conta Beto Bertagna.

A certeza da participação do Othon Bastos, que o Alberto adorava como o Honório, no filme “São Bernardo”, veio depois. “Para mim, “O Número” além do valor literário era um filme bem possível de ser feito dentro da pobre realidade audiovisual de Rondônia. Ou seja, um ator só, num cenário só e luz natural, mais o auxílio de alguns equipamentos de luz doados há um tempo atrás pela Edna Fujii e pelo Roberto Bicudo, da Quanta, que acreditaram na idéia da gente começar um processo de formação de técnicos aqui no Estado. Aliás, eu sou do tempo e da turma do Ricardo Aronovitch, que veio fazer um estágio avançado de fotografia na UnB, lá pelos anos 90. Só que, como muitos da época, acabei dedicando-me mais à direção do que à fotografia”. – relata Bertagna.

Diante da escassez de recursos, a cenografia foi toda improvisada dentro de uma faculdade, o que despertou muita curiosidade. “Imagine, uma prisão dentro de uma faculdade! É surrealista! E a grade não era cenográfica, era uma grade de verdade, emprestada pelo chefe da Polícia, o Carlos Eduardo Ferreira, de uma delegacia em reforma. Eu cheguei num domingo de tarde na delegacia, de óculos escuros, bermudas e chinelo de dedo e falei que eu precisava levar a grade embora. O plantonista ficou me olhando com uma cara...” – conta o diretor.

O curta de 12 minutos foi filmado em um dia. Era para ser em dois, tempo que o Othon tinha para filmar, mas, no primeiro dia, caiu um dilúvio em Porto Velho acabando com o cenário que estava destelhado para aproveitar a luz natural e, assim, com qualquer possibilidade de filmar. “No outro dia, com a colaboração de toda a ABD/RO, que obviamente cabe numa Kombi, começamos bem cedo e fomos até o último fio de luz” – brinca Beto Bertagna.

Ainda sobre as dificuldades, o diretor conta que, em Rondônia, não existe política cultural definida para o audiovisual. O último edital para incentivo à produção foi em 1996, há 10 anos, portanto. O projeto para filmar “O Número” já existia, mas só foi possível realizá-lo com o prêmio Petrobras, destinado a “mídias digitais”, que é a categoria em que ele concorre nos festivais pois foi finalizado assim. “Resolvi dar um “plus” captando em 16 mm, e foi talvez o primeiro filme rondoniense captado em película. Parece que também foi o primeiro prêmio Petrobrás para a região norte, que sempre foi muito alijada de todos os processos culturais” – comemora Bertagna.

Outra coisa engraçada foi a escolha da roupa do Othon. Beto Bertagna esperou ele chegar em Porto Velho pra não errar no tamanho. Levou-o a um brechó de um bairro bem humilde nas proximidades de onde aconteceria a filmagem. “O Othon acabou fazendo o maior sucesso, dando autógrafos às pessoas que não acreditavam no que viam. O Othon Bastos comprando uma bermuda e uma camisa velha! No final, compomos o nosso figurino com menos de 5 reais!” – lembra o diretor.

Para a filmagem, Beto conseguiu uma câmera Éclair 16 mm de um amigo documentarista, o Celso Luccas. A câmera estava nova, mas não filmava já há um bom tempo. O diretor de fotografia, o Ruda (Rodolfo Ancona Lopez) fez um pequeno teste e começaram as filmagens. No meio do filme, as borrachas de vedação do magazine, que estavam ressecadas pela falta de uso, começaram a desmanchar. Neste momento o diretor, que é hipertenso, viu a importância de contar com um profissional de mão cheia como o Ruda. “Tudo parado e ele, atrás de uma lona, passando com a maior tranquilidade cola bonder na brava Éclair...” No final tudo deu certo, a câmera perdeu o sincronismo quando a parte do Othon, que é com som direto, já tinha acabado. Mais tarde a equipe ficou sabendo que a própria câmera era uma história que merecia um filme: ela fazia os cinejornais do regime do último xá do Irã, Mohamad Reza Pavlev e, ironia do destino, acabou vindo fazer “O Número” em Rondônia.

A respeito do trabalho do Othon Bastos, Beto conta que “como se diz brincando: um Othon Basta. O seu talento já era conhecido por todos, mas ele também nos encantou pela simpatia e generosidade, tanto é que, no ano seguinte, ele foi um dos homenageados do Cineamazônia pela sua força à nossa tentativa de desenvolver o audiovisual no Estado. A participação dele foi importantíssima para incentivar as produções fora do eixo Rio - São Paulo, e mostrar que é possível realizar filmes em locais com infra-estrutura precária para a produção audiovisual. E de nossa parte, nós tentamos superar as carências retribuindo com muito carinho aos profissionais que nos apóiam”.

Logo na primeira participação de “O Número”, no Cineceará, o Othon Bastos venceu como melhor ator. O filme também participou do II Fest Belém do Cinema Brasileiro, “mas a sua carreira poderia ter sido melhor, foi um pouco prejudicada pela minha falta de tempo e de recursos” – lamenta Beto Bertagna. Em 2005, “O Número” foi projetado com legendas no Brazil Cine Festival, em Gotemburgo, na Suécia e foi bem recebido pela platéia.

Sobre seu envolvimento com novos projetos cinematográficos, Beto conta que acabou de realizar o DOCTV “O Brasil que começa no rio...”, mostrando um pouco das cores, costumes, tradições e das dificuldades do povo ribeirinho do Vale do Guaporé na fronteira do Brasil com a Bolívia. Em abril de 2006, filmará a parte ficcional de um documentário em 35 mm sobre a vida do fotógrafo norte-americano Dana Merril, que registrou a construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O filme já tem confirmado o ator Marcos Palmeira, e vai trazer depoimentos do escritor Manoel Rodrigues Ferreira e do fotógrafo Ari André, fundamentais para a compreensão da História, e será todo rodado em Rondônia.

Há ainda o projeto de um documentário sobre a vida de dois sujeitos que moram frente a frente na fronteira real do Rio Grande do Sul com o Uruguai, o arroio Chuí, lugar onde o diretor passava as férias na infância e que quer revisitar. E, em 2007, Beto Bertagna deve partir para um longa de baixíssimo-orçamento com roteiro do Alberto Lins Caldas que, no momento, está desaparecido em algum lugar ermo e remoto de Pernambuco, quiçá fazendo mais um tratamento do roteiro do filme que deverá chamar-se “Vitrines”.

Fonte Matéria: AgênciaCartaMaior


Postagem originalmente produzida para o blogue Música&Poesia

sábado, 5 de janeiro de 2008

Nanquim: Surrealismo em Curta-Metragem

Curta a Viagem Surreal desta Produção

Nanquim é um filme experimental, realizado no Mato Grosso do Sul, que nos remete a uma experiência surreal. No curta, de Maurício Copetti, as tintas ganham formas não percebidas pela crueza do dia-a-dia. Nanquim por todos os lados: na escrita, desenho, pintura, tatuagem. Esta produção aguça nossa percepção sensorial. Imagem, som, forma, música, luz, pintura... O abstrato dando vida a um poema visual, onde o antigo e moderno se confundem.
Y.H.





NANQUIM

Sinopse
Uma imersão onírica no mundo das formas.

Gênero Ficção
Diretor Maurício Copetti
Elenco Bianca Machado, Buba Marques, Rubem Dario e Tatiana Santiago
Ano 2005
Duração 17 min
Cor P&B
Bitola Vídeo
País Brasil

Ficha Técnica
Produção Mauricio Copetti de Moura Fotografia Hélio Camerieri Roteiro Mauricio Copetti e Lucas Bicca Direção de Arte Dagô Pedroso Câmera Hélio Camerieri e Mauricio Copetti Edição Mauricio Copetti Edição de Som Leo Copetti Produção Executiva Mauricio Copetti


Fonte: Música&Poesia

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Lirismo Captado por Celular em Curta Português

Curta Morreste-me
Produzido do outro lado do Atlântico, Morreste-me é um filme impregnado de lirismo. Este curta português foi montado em cima de vídeos captados com um celular. O que podia ser uma deficiência foi usado com extrema destreza. A textura da câmera do telefone móvel confere uma aura especial a esta produção lusitana. Com uma bela trilha sonora, Morreste-me tem texto baseado em poesias do poeta português José Tolentino Mendonça. Confira abaixo o curta-metragem.
Y.H.

Morreste-me


Sinopse
Este vídeo foi feito com um aparelho celular, que capturou momentos íntimos, pessoais e humanos. Homenagem a todos aqueles que partiram, mas cuja partida nos tornou mais próximos.

Gênero Ficção
Diretor
Joana Rão / Carlos Gomes
Duração
8'30''
Cor Colorido
Bitola
Celular
País
Portugal
Texto baseado em poemas de José Tolentino Mendonça

sábado, 22 de dezembro de 2007

Assista Excelente Curta-Metragem Paraguaio

O OutroCine reproduz abaixo postagem originalmente escrita para o blogue Música&Poesia, no dia 13 de maio de 2007. Na ocasião foi apresentado o curta Say Yes, do paraguaio Juan Carlos Maneglia. Say Yes é um filme brilhante, vale a pena assistir. Excelente fotografia, roteiro bacana e direção muito boa de Maneglia (ele também foi o montador do filme), sem falar na interpretação de John Breen. Y Viva Latinoamérica!

Filme Latino-Americano
por Yerko Herrera

John Breen, em Say Yes
É lamentável a distância a que estamos resignados em relação aos nossos irmãos da América Latina, principalmente quando se trata de troca cultural. Falando especificamente de cinema, é raro saber dos filmes produzidos pelos países vizinhos, com exceção do cine argentino, que, devido a sua fama internacional e pelo acordo de distribuição existente entre Brasil e Argentina, é razoavelmente bem difundido por estes cantos, ou de um ou outro filme latino que após destacar-se em grandes festivais chega a algumas poucas salas de exibição dedicadas a filmes alternativos. Entretanto, a farta produção hispano-americana é praticamente ignorada no Brasil. Então, quando se fala em curtas-metragens, é completamente desconhecida. Pra amenizar este prejuízo, o Música&Poesia apresenta Say Yes, do paraguaio Juan Carlos Maneglia. Filmado em 16mm, o curta mostra a vida de um perturbado homem que, preocupado com uma crise em seu relacionamento amoroso, se detém mais em detalhes obsessivos do que na resolução do problema.

Assista Say Yes aqui

NOTA: Infelizmente, por opção própria, o realizador Juan Carlos Maneglia retirou o excelente Say Yes da internet. Até o momento não há cópia do curta em nenhum outro site de compartilhamento de vídeo. Perde o OutroCine, por ser um dos melhores filmes do acervo, e perde o espectador, que deixa de ter o privilégio de assistir este maravilhoso curta.

Sinopse
Este comovente filme retrata como a demasiada falta de autoconfiança pode ter extrema força no destino. Um homem luta valentemente contra o fim da fase de flores do relacionamento. O medo de ter chegado ao fim faz com que ele busque a resposta da questão em uma simples margarida. Bem me quer, mal me quer...

Gênero Ficção
Diretor Juan Carlos Maneglia
Elenco John Breen, Ana Neira
Ano 1999
Duração 7 min
Cor P&B
Bitola 16mm
País Paraguai

Traficante Playboy, Tema de Filme Nacional

O tráfico está aqui, no asfalto
Meu nome não é Johnny filma a classe média carioca

por Ana Paula Sousa

Selton Mello é João Estrela, jovem que leva drogas para a Europa e vive entre farras com a namorada
Em Bicho de Sete Cabeças (2001), vimos o pai que dá cabo aos sonhos do filho por causa da maconha. Em Cidade de Deus (2002), acompanhamos o tráfico que ceifa vidas pobres e negras. Este ano, Tropa de Elite pretendeu mostrar que os estudantes da PUC, ao fumar um baseado, adquirem parcela de culpa pela violência no Brasil. No dia 4 de janeiro, chega aos cinemas a droga que percorre ruas arborizadas, entra nas festas “descoladas” e mexe no bolso dos ricos e remediados.

Meu Nome Não É Johnny, só por isso, mereceria ser visto. O filme que refaz a história de João Guilherme Estrela, playboy tornado traficante no meio “bacana” carioca, percorre, com originalidade, o circuito das drogas encampado pelo cinema brasileiro nestes anos 2000. Pode ter escorregões melodramáticos (como as justificativas rasas para o vício e o idealismo da “volta por cima”), mas é verdadeiro no que mostra. E na maneira como mostra.

“A história do Johnny é a história do asfalto”, define a produtora e co-roteirista Mariza Leão, que passou na frente de outros oito produtores interessados no livro homônimo, escrito por Guilherme Fiúza. “A tradição do Cinema Novo deixou uma marca na nossa produção, que é a de falar sempre do outro. Acho que este filme faz cada um de nós, gente de cinema, jornalistas, pensar em como estamos lidando com o problema das drogas dentro das nossas casas. Temos uma classe média cada vez mais transgressora.”

Por essas e outras, Meu Nome Não É Johnny perturba. Interpretado por um Selton Mello na medida, João é o jovem que vê nas drogas sua diversão e seu modo de ganhar dinheiro – por mais que o filme, no final, o exima de qualquer vocação mercenária. João é também a face oculta de uma classe social que convive com as drogas e prefere não pensar de onde ela vem. “Temos que falar disso sem hipocrisia. Apontar culpados é fácil. Mas ninguém é culpado sozinho, nem o cara do morro nem a classe média. O filme vai esquentar essa discussão”, aposta Estrela.

Filmado em ritmo jovial por Mauro Lima, diretor de videoclipes e de Tainá 2, Meu Nome Não É Johnny é entretenimento de qualidade. A inevitável simpatia pelo protagonista, se moralmente pode ser discutida, em termos cinematográficos é um acerto. Dos diálogos divertidos ao elenco que funciona de ponta a ponta, o filme é eficaz e, mesmo nas falhas, abre caminho para uma discussão e tanto.



Meu Nome não é Johnny - Trailer

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Mistério na Estrada

Suspense em estrada deserta

Dirigir sozinho em uma estrada deserta pode ser bastante assustador. Esse é o mote do curta neozelandês, dirigido por Nick Goldwater e Rupert McKenzie. O suspense Distraction pode ser assistido no linque abaixo.

Assista Distraction aqui (arquivo *mov - necessário um tocador que leia arquivos do QuickTime)

Baixe Distraction aqui (**arquivo mp4)

Nota: Apesar de ainda estar no ar, o site que hospedava o filme está com todos os links desativados. Desconheço o motivo pois não há nenhuma informação a respeito. Infelizmente ainda não localizei nenhuma outra fonte que contenha este curta-metragem. Se for encontrado será imediatamente substituído por um válido. Agradeço a compreensão.

Sinopse
Comédia de humor negro desenvolve-se numa estrada do deserto e mostra como as coisas podem dar errado quando você não está concentrado na direção.

Gênero Ficção
Diretor Nick Goldwater / Rupert McKenzie
Elenco Richard Collins, Stuart Bedford
Ano 2001
Duração 7'15''
Cor Colorido
Bitola DV
País Nova Zelândia



*O filme pode ser assistido com QuickTime, no entanto, o OutroCine recomenda o QuickTime Alternative, que, além de ser programa de código aberto, gratuito, é muito menor que o programa da Apple.

**Arquivos de extensão .mp4 podem ser baixados para MP4 Player's, portáteis leitores de vídeo e áudio.

Crítica sobre Mutum

O escritor Jeová Santana escreveu sobre o filme Mutum, de Sandra Kogut, para o saite de literatura e arte Cronópios.

Triste, denso e belo
por Jeová Santana


Este ano saí de casa para ver, duas vezes cada, três filmes brasileiros: “Os Dozes Trabalhos” (Ricardo Elias), “O Cheiro do Ralo” (Heitor Dhalia) e “Mutum” (Sandra Kogut). Este, o mais recente, apresenta algumas voltagens emotivas que ainda repercutem e guiam o correr dessas linhas marcadamente impressionistas. Tal escolha não se deve, em princípio, à afinidade com Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), ensaísta, cinéfilo e contista tardio, cuja obra vem sendo reeditada com o cuidado editorial à altura de seu legado. O autor de “Três Mulheres de Três PPPÊS” afirmou que o filme brasileiro, mesmo ruim (o que não é o caso dos que citei), teria sempre algo a dizer sobre nós, daí preferi-lo a qualquer um feito nos Estados Unidos. Pinçada assim, sem referências contextuais, tal reflexão pode despertar, de saída, alguns pruridos ufanistas, mas sabemos que a produção da (ainda) chamada Sétima Arte em terras americanas, não existe somente na linha de montagem de Hollywood, cujo selo final é impresso todo ano naquela patacoada chamada Oscar. A parcela lá produzida que fica fora do chamado “circuitão” é do conhecimento de poucas retinas.

Talvez minha opção pelo produto nacional se deva, de inicio, a recusa à “estética da ligeireza”, marca registrada nas terras de Spielberg & Cia, ao qual já me deixa cansado antes da hora. Qualquer coisa na linha “300” ou “Máquina mortífera” embaralha-me as vistas e não saio do meu recanto sacrossanto para seu ninguém. Nesse sentido, também não me animei a encarar o tiroteio e o corre-corre de “Tropa de Elite”.

Para quem está acostumado com esse tipo opção artístitca, dará nos nervos passar 95 minutos, vendo a leitura que a diretora Sandra Kogut, a roteirista Ana Luiza Martins Costa, o fotógrafo Mauro Pinheiro Jr., o sonoplasta Márcio Câmara, entre outros, fizeram para “Miguilim”, que integra o livro “Campo Geral”, de Guimarães Rosa (1908-1967). O primeiro incômodo vem pelos olhos. Pois os acostumados a viver cercado de prédios por todos os lados, o que torna a palavra “horizonte” apenas um verbete nos dicionários, estranha se vê frente a frente com tanto descampado, logo depois de se sentir na garupa do cavalo que conduz o menino Thiago e seu tio Terez de volta para casa.

O segundo fica por conta da audição, pois depois do trote e do resfolegar, o espectador convive com a profusão de sons de todos os tipos: chuva, vento, raios, trovões, pingueiras, insetos, passos, gemidos, água de rio, bater de portas e janelas, passarinhos, milho de pipoca espocando, aboios, latidos. É uma sinfonia que desestabiliza ouvidos acostumados ao ramerrão dos canos de escapamento e dos bate-estacas. Como contraponto à longa enfiera de ruídos, vem outra gastura diante de várias cenas em que o silêncio se impõe: carinho entre mãe e filho (num close de alta sensibilidade), o enquadramento da casa, a mãe refletindo, a avó Izidra sentada na cama depois de arrumar os trens do neto morto.

Paralelo ao ritmo sonoro, a narrativa vai sendo conduzida com a apresentação de um mote aparentemente parco: um triângulo amoroso, cujo desfecho, pelas leis num tempo e espaço no qual imperam macheza e brutalidade, só pode se encaminhar para a tragédia. Mas, aí, para contrabalançar a crise iminente, o narrador insere o menino Thiago, que será o responsável para prolongar ou interromper a trama, pois fica no fogo-cruzado entre o suposto envolvimento da mãe com o tio. Este, ao contrário do pai, que o cala, ora não respondendo suas perguntas, ora descendo-lhe a mão sem dó nem piedade, é só carinho e não o acusa de “querer ser diferente”.

O ponto culminante da tensão construída com sutileza está na cena em que o sobrinho devolve ao tio o bilhete que deveria ter sido entregue à mãe. O choro com que expõe seu fracasso é um desses momentos sublimes da arte. Sentir-se tocado por ela é saber que ainda temos umas réstias de humanidade correndo nas veias. Efeito que se torna mais luminoso quando se sabe a origem amadora da maioria do elenco, com exceção do ator que faz o pai (João Miguel, de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, 2005). Bastaria este choro para dar a dimensão da leveza e da segurança na condução da narrativa. Ele inclusive poderia evitar a proximidade do foco nas lágrimas de Thiago quando perde o irmão Felipe. Ali elas são previsíveis. A câmera poderia ter ficado mais distante, tal como no momento em que o pai espanca a mãe, e ficamos a par da acusação, dos sons dos tapas e objetos caindo, tudo pela visão do menino. Longe, portanto, do excesso naturalista que fez escola no cinema brasileiro.

Transpor Guimarães para outras mídias é sempre um desafio, pois é preciso privilegiar o diálogo em detrimento da conhecida exuberância verbal e dos contorcionismos lingüísticos de seus narradores. Além disso, é preciso lembrar, no caso de cinema e teatro, da exigüidade do tempo, que é bem mais farto quando nos propomos a encarar as centenas de veredas criadas pelo homem nascido em Cordisburgo (MG) há quase cem anos. Por isso, há de se louvar a opção da diretora em não cair nessa esparrela e utilizar-se de um argumento básico: cinema é imagem. Sendo assim, ela optou pela contenção discursiva, com as falas entrando em momentos muito específicos, permitindo com que seus atores também as substituíssem pelo gestual. O ronco-gemido de Felipe, pouco antes de morrer, é apenas um dos muitos exemplos em que a palavra pode ser cortada, dispensada, tornada impotente, tanto nessa hora de dor quanto para explicar as formas de uma nuvem, os medos oriundos da mata, as causas do assassinato que jogou o pai no oco do mundo.

O sertão roseano está lá do mesmo jeitinho, retratado de forma crua, sem a “estetização da miséria”, outro modismo na ordem do dia por aqui. Sua ligação com a “modernidade” que nos assola vai além da nota de R$ 10,00 que aparece entre os guardados do irmão morto, e que serão enterrados no mesmo chão que o abrigou.

Como destaque do equilíbrio entre palavra, ação e imagem, ainda podemos acrescentar a cena em que o personagem mirim se vê às voltas com um médico da cidade (leia-se Guimarães-personagem) que lhe aponta defeitos na visão e depois lhe oferece seu par de óculos. O esperado seria alguma pirotecnia mostrando o antes e o depois nas imagens. Mas a mudança de perspectiva é apenas interior: “as pedras fica mais grande”. É um ritual de passagem que abre para a possibilidade de cruzar fronteiras, sair daquele lugar onde trabalho infantil é condição natural e a escola é algo que passa ao largo das necessidades. Nesse mundo, contudo, abrem-se brechas para pequenas alegrias: quadrinhas, trava-línguas, brinquedos de madeira, alçapões, ouvir causos dos vaqueiros, rir diante do desempenho do papagaio, observar a ação do milho de pipoca. É pouco, mas substancial, pois assim são reveladas ilhas de delicadeza e solidariedade entre desgarrados, ambulantes de Deus, desvalidos, testemunhas do que se convencionou chamar de “Brasil profundo”.

Depois de ver a entrega da cachorra Rebeca, o papagaio que escapa, o tio aconselhado a sair de casa para evitar uma desgraça, o irmão morto, o pai foragido, o menino Thiago está calejado no exercício do ir-se embora. É hora de largar a saia da mãe para saber “por que as coisas acontecem, então?”. É preciso tocar para outros gerais, decifrar outros mistérios. Encontrar um lugar onde a dor do homem lateje mais devagar. Perto do mar, talvez.


Jeová Santana (1961) nasceu em Maruim (SE). É autor dos livros de contos Dentro da casca (1993), A ossatura (2002) e Inventário de ranhuras (2006). É mestre em Teoria Literária pela Unicamp. Atualmente é doutorando no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política e Sociedade da PUC/SP. E-mail: jeopoesi@bol.com.br

Fonte: Cronópios

Mutum - Trailer

Longa Brasileiro Arrisca-se no Abstrato

Saiu lá no Overmundo uma postagem sobre o longa-metragem Kynemas, de Pedro Paulo Rocha, certamente um filme bem complicado.

kynemas, filmes in fluxos
por rsaito

"conectar o cinema às
geografias urbanas e cyberais."

Nesse seu longa de estréia o cineasta e artista multimídia, Pedro Paulo Rocha, nos propõe 80 minutos de imersão sensorial em um kaos plástico e sonoro.Quem espera ver um filme realista, onde personagens vivem estórias, será surpreendido por um fluxo ininterrupto de imagens e sons, com muita cor e música em ritmo alucinante. A câmera mergulha em um oceano de abstrações e cores na paisagem urbana.

Filme concebido para ser uma obra eletrônica in progress; kynemas é um manifesto plástico sonoro sobre as formas nascentes de cinema na contemporaneidade; Um filme ininterrupto para constantes novas versões, jogos de armar na internet, com teclados interativos, redes de artistas, memória eletrônica, ciclo de exibição e laboratórios de tvs digitais.

"Estamos diante da emergência de novos cinemas expandidos,
de cinemas para hipertelas, suportes virtuais, interativos, móveis".

"O cinema está na pele da subjetividade contemporânea, cada vez mais miscigenado na cotidianeidade do vídeo, da música e do computador. Sub way, kynemasvideos palimpsestos".

Na fronteira entre artes plásticas, cinema e arte eletrônica, kynemas sugere ao espectador uma experiência única com a percepção. O artista define o filme como "uma provocação plástica para olhos e ouvidos livres; Um invento de pura vibração, de cor e luz, mas também de sangue e fúria. É uma sinfonia urbana, anarcocromática, que nasce dos ritmos das imagens e da cidade."

"O filme é um gesto poético que não exclui a violência da imaginação contra o absurdo e o horror que essa sociedade produz.
Nesse sentido, as cores e as músicas do filme sangram".

Kynemas foi realizado eletronicamente na montagem, mistura samplers, re-criações plásticas e derivas de filmagens pela cidade.

O filme experimenta "as passagens sensorias", de uma linguagem a outra. dilata o espaço sensorial da cidade, mistura música, artes plásticas, fotografia, vídeo, arquitetura, mares de cores, ruídos e ataques sonoros, rajadas de imagens e músicas, fragmentos de memória. Dziga Vertov, Stan Breakhage, Godard, Ozualdo Candeias, Glauber Rocha entrelaçados através de frames e paisagens, melodias, canções, derivas, música eletroacústica, vozes, poesia sonora, fotogramas, catástrofe e lixo urbano.

Máquinas ritmicas de montagem, percussão com gotas. pianos.chuvas. Sons de ferros. filmagens ao acaso. Imagens filmadas na moviola. Pixel. Tv. Cinema. Textura de imagens. Vitrais criados com telas sobrepostas. Fusões sobre fusões. Contraponto e assincronia entre imagem e som.

"O processo de criação foi marcado por um movimento de desconstrução da estrutura fechada do filme ".

"A imagem como música eletrônica , elementos ritmicos que podem se recombinar; e a música como imagem manipulável, montagem, massas plásticas que se justapõem e se chocam; samplers, assemblagens, readmade-visual-sonoro."

O processo de montagem foi levado as últimas conseqüências.
O filme passou a ser uma memória live do processo de criação; De uma partícula sonora, a um frame, a um micro-filme, todo o material pode compor a galáxia de possiblidades e se retraduzir dentro da obra in fluxo. O processo seria ininterrupto, "infinito ao cubo" , através de uma rede de conexões de memórias abertas e compartilhadas.

Kynemas foge as definições e preconceitos do que seria ou não seria cinema.
Esse filme poderia ser chamado de "pintura eletrônica ou grafismo urbano; não importa se é artes plasticas, cinema ou uma experiência no espaço, instalação, imersão; o que importa é sugerir um contra fluxo nômade em que uma linguagem pode sugerir outra, misturando o que está separado. Tudo pode ser cinema; kynemas é imagem e som em movimento. É música. Arquitetura. É limite, experiência. Cinema, quasi-cinema.

"O nome kynemas foi escolhido para marcar novas formas de cinemas nascentes nessa contemporaneidade tecnológica. Um gesto plástico para amplificar as possibilidades de se fazer cinema na atualidade".

Ser um cineasta na era eletrônica é ser "um experimentador de linguagens, um artista cross-over que atravessa todos os meios sem fronteiras. O cinema se transformou em arte híbrida cada vez mais , que sempre incorpora outra."

O filme começa em um oceano de cores e pixel, pontuados por vozes de diferentes personagens e canções. Uma personagem imaginária que diz " vê como sonorizo isso", "o que os olhos não podem ver", " kaos", "kynemas" , " vc é a personagem sonora do filme" " uma personagem imaginária" " som", "imaginamos cidades".
“ em cada imagem existe também um invísivel a ser decifrado."

" Imagens quase-abstratas , com cores fortes, tempo sincopado, simulando uma atmosfera cósmica; imagens que praticamente transbordam a tela e explodem no espaço."

O filme exige esse esforço visual para vermos além da abstração;
" …e esse invisível é a própria cidade que vai surgindo; ganha contorno meio as abstrações aparentes um visível no mar urbano".

Viajamos em um roadmovie por São Paulo, invandindo universos mais documentais, filmando encontros inesperados com pessoas anônimas, moradores de rua; falas improvisadas para diálogos absurdos; cenas noturnas, duplos de imagens, vozes , " ver, vvvvvvvv, des, ver, rrr, desver, vermelho no vermelho", " um espelho reflete estilhaços da cidade", frames entrelaçados de frames em uma hiperficção sensorial…"

" disparo" " rajadas de sons e imagens"
"no corte que pisca um frame de instante."
kynemas
"ataques de imagens, rajadas de sons,"
"disparo" " num salto sem instante"

Fonte: Overmundo


Kynemas

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Animação Narra Drama de Refugiados

Black Day to Freedom é uma bela e comovente animação que faz refletir sobre o drama dos refugiados, sobre o problema da imigração e das fronteiras. Este curta é dirigido pelo ilustrador Rob Chiu que sempre produz animações engajadas em temas sociais. Black Day to Freedom é extremamente bem feito e foi tão bem sucedido que gerou um livro com mesmo nome.

Black Day to Freedom


Sinopse
Um dia ensolarado. A família feliz. Quem imaginaria que ia terminar assim.

Gênero Animação
Diretor Rob Chiu
Ano 2005
Duração 4min
Cor Colorido
Bitola Beta Digital
País Inglaterra