segunda-feira, 23 de julho de 2007

Entrevista com Jorge Furtado

VIVA O FILME BRASILEIRO
por Ana Paula Sousa


Em Saneamento Básico, o filme, o diretor Jorge Furtado faz piada com o cinema e, ao mesmo tempo, defende a produção nacional. Em entrevista para o site de CartaCapital, ele fala sobre o filme e os desafios de ser cineasta

Jorge Furtado tem sempre uma tirada na ponta da língua. Parece até que inventa roteiros enquanto fala. Na entrevista coletiva para o lançamento de Saneamento Básico, o Filme , realizada na terça-feira 10, num hotel da avenida Faria Lima, em São Paulo, Furtado e a trupe de atores de sua mais nova comédia, ria e fazia rir. Era como se eles tentassem, ali, esticar o clima do longa-metragem.

E Saneamento Básico é, de fato, muito engraçado (leia crítica aqui). O novo trabalho do diretor do cultuado curta-metragem Ilha das Flores (1989) e de longas-metragens como O Homem que Copiava (2003) e Meu Tio Matou um Cara (2004) brinca com a produção cinematográfica ao botar, nas mãos de uma simplória família, uma câmera de vídeo. Na entrevista abaixo, Furtado, sócio da Casa de Cinema de Porto Alegre, fala sobre o novo filme (www.saneamentobasicoofilme.com.br) e, claro, do cinema nacional.

CartaCapital: O público vai entender as piadas internas, as brincadeiras com roteiro, merchandising, figurino?Jorge Furtado: Essa era minha maior dúvida. Mas fizemos sessões com gente que não tem nada a ver com cinema, como as professoras da rede pública de Porto Alegre, e todo mundo riu. Tem muito filme sobre filme, mas Saneamento Básico não é isso. Não é uma equipe de cinema fazendo cinema. É gente que não tem a menor idéia do que seja uma câmera e vai fazer um filme.


CC: É mais uma declaração de amor ao cinema do que uma crítica ao sistema de produção?

JF:
É as duas coisas. Acho que até nasceu mais com uma crítica, não sei, mas quando vi o filme montado me dei conta do quanto era uma declaração de amor ao cinema. É um filme sobre o poder que o cinema exerce sobre quem vê e quem faz. A idéia surgiu daquele projeto Revelando Brasis, do Ministério da Cultura, que propõe que comunidades pequenas façam vídeos. Eu fiquei pensando: como essas pessoas fariam um filme? No fundo, elas têm outras demandas. Que demanda seria? Por saneamento básico, que é a primeira coisa que você tem que ter. Na escala das necessidades, o cinema é o extremo oposto do saneamento básico.

CC: Esse filme é também uma resposta às acusações da revista Veja (Furtado ganhou um processo judicial contra a revista) que te chamou de cineasta petista e questionou o orçamento do filme que você faria para o Banco do Brasil?
JF:
Ao contrário. O roteiro do Saneamento Básico já estava escrito quando o Banco do Brasil convidou sete diretores para fazer um filme sobre os valores do Brasil. Me convidaram para falar de fraternidade e, como o orçamento era alto, com o que sobrou eu resolvi construir uma quadra de esportes na Ilha das Flores, onde tinha feito o curta. O Saneamento é anterior ao Fraternidade, como roteiro.

CC: Mas Saneamento não acaba sendo também uma resposta a quem, vira e mexe, questiona a legitimidade do cinema brasileiro? Como diz o (cineasta) Eduardo Escorel, parece que o cinema brasileiro tem sempre que justificar a própria existência.
JF:
Parece mesmo. Eu escolhi, como tag line do filme a frase “Se é pra fazer, é melhor fazer bem feito”. Tem gente que ainda levanta a pergunta: “O Brasil precisa fazer cinema?”. Isso prossegue entre um tipo de público muito formado pelo cinema americano. Mas eu acho que a função dos cineastas e das pessoas que trabalham com cultura é produzir e tentar convencê-los, pela qualidade, de que sem cultura um País não existe. A Fernanda Torres disse, na entrevista coletiva, uma coisa que eu achei bonita: “O cinema é o saneamento básico da alma”.

CC: Difícil é convencer o público a ir ver, né? Você tem uma boa máquina por trás, com GloboFilmes, atores da novela eColumbia. Mas o problema do cinema brasileiro é que o público, simplesmente, não tem ido ver os filmes.

JF:
Pois é. Mas a gente tem que continuar tentando quebrar esse preconceito. Eu não sei porque, mas, de 1993 a 2003, o público cresceu sem parar. Em 2003, começou a cair de novo. Talvez, até ali se tenha conseguido criar um clima de “ah, o cinema brasileiro é legal”, mas aí as pessoas iam ver e foram percebendo que nem todos eram legais. Então começou, talvez, um certo refluxo. No ano passado, acho foram 14 milhões de ingressos. Em 2003, foram 22 milhões. A gente tem que quebrar esse preconceito com qualidade e diversidade. Acho que o maior problema é que nós, cineastas, continuamos fazendo do cinema brasileiro um gênero. Nas locadoras, continuamos na prateleira de cinema nacional. A gente não tem que trabalhar em bloco. Há espaço para Cão sem Dono, Baixio das Bestas, Saneamento Básico, Romance, que é o próximo filme do Guel. A diversidade que eu espero, como espectador, deve nortear os realizadores também. O Borges dizia “eu não sou inimigo dos gêneros”. Eu também não sou. Posso gostar de filme de terror, de comédia, de velharia.

CC: O Saneamento é um pouco o elogio da diferença, não? Uma coisa pode ser esquisita e boa.

JF:
É, o Zico (montador do vídeo fictício, personagem de Lázaro Ramos) adorou o filme, viu ali uma novidade. Eu vejo muito o Canal Brasil, sabe? E mesmo filme ruim, eu gosto de ver. Você vê a nossa ruindade. O filme é ruim, mas tem a ver com a nossa vida. Os filmes antigos se tornam um pouco documentários, porque mostram a cidade. Estou virando, cada vez mais, um ativista. Praticamente só saio de casa, para ir ao cinema, para ver cinema brasileiro.

CC: É mesmo?

JF:
É, porque com o dvd a gente pode ver tudo em casa, depois. Shrek eu vejo com a minha filha em casa.

CC: Isso é uma espécie de militância, não? E eu aproveito pra te perguntar: a política cinematográfica, que teve anos de agitação recentemente, não deu uma arrefecida?
JF:
Não sei direito. Teve aquela luta pela retomada, nos anos 90, depois teve a Ancinav ...Talvez tenha diminuído um pouco a articulação, mas isso também é normal. Não sei te dizer. Como sou muito mais um roteirista, vou escrevendo e, depois. vejo como consigo fazer o filme. Cada projeto tem o seu tamanho, o seu público. O mais difícil é convencer as pessoas a sair de casa para ver o filme.

CC: Até que, no seu caso, com GloboFilmes, Camila Pitanga e Wagner Moura, par da novela das 8, isso fica mais fácil, não?
JF:
Que sorte (risos). Mas foi tudo coincidência. Quando chamei os dois eu não podia sonhar que estariam na novela. Espero que ajude.

CC: Se você tivesse, hoje, que fazer um filme sem a GloboFilmes e a Columbia, você se sentiria com uma barquinho sozinho no oceano?
JF:
Nunca penso se vou fazer com a Columbia ou não sei quem. Eu escrevo. Agora, eu estou escrevendo três roteiros de longa-metragem. Mas eu não sei com quem vou fazer. Posso ir buscar dinheiro fora, por exemplo.

CC: Saneamento foi feito com verba dos editais públicos, da Petrobrás e do BNDES. Você é favorável à política de concursos públicos?
JF:
Acho que não há outra. Temos que decidir, no País, se queremos ter cultura ou não. O Collor decidiu que não. Se dissermos que sim, temos que perguntar como. Eu acho que só há um jeito possível, com concursos, que têm prazos e júris renováveis. Qual a outra saída? Entregar para o mercado? O mercado não vai produzir um documentário sobre o Nelson Freire, que foi um dos melhores filmes que eu já vi. O júri pode errar? Pode. Mas é mais qualificado que o diretor de marketing de uma empresa.

CC: No mês passado, você ganhou um processo contra a Veja, por calúnia e difamação. Com você define esse episódio?
JF:
Um dia, eu foi surpreendido por uma coluna extremamente ofensiva, baseada em mentiras, em fatos não reais, e fiz o que acho que qualquer pessoa deve fazer: fui para a justiça. Não respondi na hora porque não é esse o caso, eu não quero alimentar esse tipo de mídia. Entrei na Justiça e ganhei.

CC: Você foi vítima de quê? De patrulhamento ideológico?
JF:
Eu não sei qual foi a motivação. Era um negócio tão violento, mentiroso. Não se trata de opinião. Opinião é totalmente livre, as pessoas podem odiar meu filme. Aliás, no caso específico do Diogo Mainardi, eu conheço os filmes dele, e espero que ele odeie os meus.


Fonte:
CartaCapital


Crítica sobre Saneamento Básico no blogue portador de ausências

Confira abaixo O Sanduíche, curta-metragem dirigido por Jorge Furtado.

O Sanduíche

Sinopse
Os últimos momentos de um casal, a hora da separação. O fim de alguma coisa pode ser o começo de outra. Outro casal, os primeiros momentos, a hora da descoberta. Encontros, separações e um sanduíche. No cinema o sabor está nos olhos de quem vê.

Gênero Ficção
Diretor Jorge Furtado
Elenco Janaína Kramer, Felippe Monnaco, Nelson Diniz, Milene Zardo
Ano 2000
Duração 12 min
Cor
Colorido

Bitola 35mm
País Brasil (RS)


Ficha Técnica
Roteiro Jorge Furtado Fotografia Alex Sernambi Edição Giba Assis Brasil, Fábio Lobanowski Produção Débora Peters Direção de Arte Fiapo Barth Trilha original Léo Henkin Som Direto Cristiano Scherer, Luiz Adelmo

Prêmios
Melhor Ator no Brazilian Film Festival of Miami 2001
Melhor Atriz no Brazilian Film Festival of Miami 2001
Melhor Curta - Júri Popular no Brazilian Film Festival of Miami 2001
Melhor Fotografia no Brazilian Film Festival of Miami 2001
Melhor Filme no Cine Ceará 2001
Melhor Roteiro no Cine Ceará 2001
Melhor Montagem no Festival de Brasília 2000
Prêmio Especial do Júri no Festival de Gramado 2001
Melhor Roteiro no Festival imagem em 5 minutos 2001
Prêmio Especial no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte 2001
Destaque do Júri Popular no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2001
Melhor Ator no Festival Latino de Campo Grande 2001
Melhor Curta de Ficção no Festival Latino de Campo Grande 2001
Melhor Diretor no Festival Latino de Campo Grande 2001
Melhor Roteiro no Festival Latino de Campo Grande 2001
Melhor Filme - Júri Oficial no Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira 2001

2 comentários:

Fabio Shiro Monteiro disse...

Li com grande satisfacäo essa entrevista. Com relacäo à polêmica do Diogo Mainardi: ele usa seu rancor para fins destrutivos. Jorge Furtado (já estou ansioso pelos seus próximos filmes) usa seu talento para fins construtivos. Cada um luta com as armas de que dispöe.

Renan dos Reis disse...

Ótima a entrevista com Jorge Furtado!
“Saneamento Básico – O Filme” é um retrato vivo que se é possível fazer cinema no Brasil de baixo orçamento de qualidade